terça-feira, 21 de novembro de 2017

GRANDE SERTÃO: A VIAGEM


Algumas viagens entram para a história. Outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando há 65 anos, em maio de 1952, se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra.
Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia - as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.
As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras - entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).
No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região.
Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida - carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi - e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época.
Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.
As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela "Uma Estória de Amor", inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.
Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor.
Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra.
A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.
Dono de uma memória prodigiosa, Zito guardou detalhes da viagem de Guimarães Rosa que ajudaram a reconstituir cada passo da aventura vivida pelo escritor – incluindo nomes, lugares e datas. “Ele queria saber de tudo. Se visse aquele pau ali, queria saber o nome daquele pau. Se ouvisse uma conversa, queria saber do que a gente falava. E ia escrevendo tudo nas cadernetas que levava penduradas no pescoço”, disse, em 2001.
Segundo o vaqueiro, Rosa teria dito que pagaria seus estudos no Rio de Janeiro, proposta que ele recusou. “Queria mesmo era ser vaqueiro”. Zito morreu aos 65 anos, em 2002, em Três Marias. Foi o penúltimo dos oito vaqueiros da tropa a morrer – o último foi Sebastião Leite, em 2005.

*João Correia Filho.

domingo, 5 de novembro de 2017

LITTLE WILLOW

                      

ZUZU ANGEL

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
– Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar.

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
– Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar.

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
– Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar.

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
– Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar.


O gênio da música popular brasileira Chico Buarque de Holanda compôs a canção “Angélica” em parceria com Miltinho do grupo MPB-4 para homenagear Zuleika Angel Jones, estilista brasileira que ficou internacionalmente conhecida como Zuzu Angel.
Mineira de Curvelo, Zuzu iniciou sua carreira na arte da costura no Rio de Janeiro no final da década de 1950. Fez muito sucesso no mundo da moda ao criar coleções originais com estampas ousadas, criando um estilo que foi sua marca registrada.
Anos mais tarde, porém, seu filho Stuart Angel Jones tornou-se um militante político e passou a atuar clandestinamente nas ações de guerrilha no combate à ditadura militar. Acabou preso, torturado e morto em um quartel do Exército em 1971.
Oficialmente Stuart era considerado um “desaparecido”, mas o preso político Alex Polari havia testemunhado as condições de sua morte na prisão. Polari escreveu a Zuzu revelando o que havia realmente ocorrido e a partir daí ela iniciou uma campanha de denúncias no Brasil e no exterior sobre as torturas e os assassinatos praticados pelos órgãos de repressão do governo brasileiro.
Zuzu criou a primeira coleção na história da moda com motivos políticos, usando estampas chocantes com silhuetas bélicas, pássaros engaiolados e balas de canhão disparadas contra anjos. E durante 5 anos, entre 1971 e 1976, ela tentou encontrar o corpo do filho, cuja prisão e morte nunca foram admitidas pelas autoridades militares.
Finalmente ela própria também acabou sendo assassinada em um “acidente” de automóvel forjado na saída de um túnel no Rio de Janeiro. Zuzu já tinha anunciado: “Se eu aparecer morta por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.
Uma semana antes de morrer, Zuzu Angel enviou a vários intelectuais do Brasil, entre eles Chico Buarque, um documento para ser publicado caso algo lhe acontecesse. A letra da canção “Angélica” fala da força e da determinação de uma mãe que enfrentou sozinha o poder e a violência do regime militar.
O texto é composto de quatro estrofes com quatro versos cada. Todas as estrofes começam com o mesmo verso: “Quem é essa mulher?”. Esta forma de poema onde há repetição de uma frase é chamada Ritornelo, ou seja, um retorno constante ao mesmo tema.
Há ainda um paralelismo especial entre dois elementos que constituem o princípio estruturante do texto: uma voz que pergunta sobre a mulher e a voz da própria mulher justificando a busca incessante pelo filho.

                        

JÚPITER


O planeta Júpiter é uma projeto de estrela-gêmea do Sol que não prosperou e se transformou em corpo gasoso. Seu processo de combustão interna foi reduzido por alguma razão cósmica e o corpo celeste então se condensou e se estabilizou em torno da gravidade solar, diminuindo de tamanho. A animação acima mostra como a atração gravitacional de Júpiter protege a órbita da Terra do impacto de asteroides.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

LA POLITICA

Ner modo de pensà c'è un gran divario
Mì padre è democratico cristiano
E, siccome è impiegato ar Vaticano
Tutte le sere recita er rosario.

De tre fratelli, Giggi ch'er più anziano
È socialista rivoluzzionario
Io invece sò monarchico, ar contrario
De Ludovico ch'è repubbricano.

Prima de cena liticamo spesso
Pè via de ‘sti principî benedetti
Chi vò qua, chi vò là… Pare un congresso!

Famo l'ira de Dio! Ma appena mamma
Ce dice che sò cotti li spaghetti
Semo tutti d'accordo ner programma.

domingo, 1 de outubro de 2017

COMO ESCREVO? - Amadeu de Queiroz


Vou dar uma ideia. Logo que imagino um romance, crio os seus personagens e, antes do mais, faço uma relação de todos eles, com os nomes e as características de cada qual. Assim os personagens começam a existir desde logo. Vão adquirindo personalidade e não me deixam mais um instante sequer.
Como na vida, os personagens de um romance devem existir antes da ação. Devem ser uns tipos comuníssimos, mesmo porque não é possível inventar as figuras de uma obra de ficção. Devem existir, dissimulados em toda gente; devem ter os olhos de um, o talento e o nariz de outro, a astúcia e a feiúra de muitos, a maldade de quase todos. O que sai de minha pena existe por aí, senão na realidade, com certeza na imaginação de muita gente.
Quer saber de uma coisa? Quando escrevo, procuro imitar o incrustador que, aos pedacinhos, faz o admirável conjunto de sua obra. Aplico o mesmo processo aos homens, à paisagem, às paixões, a tudo que possa gerar emoções. 
A emoção não se transmite. O escritor não deve apresentar a sua obra integralmente realizada, nem dar um sentido definitivo às suas palavras, mas incitar, com a sua arte, a arte dissimulada dos leitores, realizada só por eles, conforme a cultura e a sensibilidade de cada um. Sejam o que forem, os escritores, talentosos ou geniais, só conseguirão, com a sua arte, despertar emoções dormentes.
O livro é fonte de emoções sempre novas. Passem as gerações e os leitores continuarão criando os seus mundos, inspirados no mesmo livro, no livro que não morre nem envelhece. Mas também há os leitores pretensiosos. Esses querem a toda força encontrar em nossos escritos intenções que jamais tivemos.
Acontece, às vezes, que me vem à lembrança uma palavra qualquer, que me parece expressiva ou interessante. Sinto um desejo enorme de utilizá-la. Então componho uma frase em que ela fica em bastante destaque. Feita a frase, corrijo-a, deixo-a bem apurada e aplico-a a um sentimento, a uma paisagem, a um tipo. Depois, acomodo-a a uma história.
O leitor não conhece essas ginásticas de trampolineiro. Supõe a criação enorme, descendo para a exiguidade da palavra. Portanto, já então, eu saí do meu rumo para cair no do leitor. E, assim, quanto mais incompreensível me apresento, mais engenhoso ele se torna para interpretar-me. E chega ao ponto de descobrir intenções que não tive, símbolos de que não me servi, argúcias filosóficas de que nunca dispus.