terça-feira, 13 de outubro de 2015

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ROMANCE

O Romance se inicia nos meados do século XVIII, substituindo a Epopeia, considerada, na linha da velha tradição aristotélica, uma expressão nobre de arte. Assim, o novo gênero literário passa a representar o papel que antes era destinado ao antigo, objetivando o mesmo alvo: constituir-se como o espelho de um povo, a imagem fiel de uma sociedade.
Servindo à burguesia em ascensão, depois da revolução social inglesa, na segunda metade do século XVIII, o Romance tornou-se o porta-voz de suas ambições, desejos, veleidades e, ao mesmo tempo (e sobretudo), ópio, sedativo ou fuga da materialidade diária.
Entretenimento, ludo, passatempo de uma classe que inventou o lema “tempo é dinheiro”, o Romance traduz fielmente o bem-estar e o conforto financeiro de indivíduos que pagam o trabalho do escritor no pressuposto inabalável de que a função deste consiste em deleitá-los.
E deleitá-los oferecendo a própria existência artificial e vazia como espetáculo, mas sem que a reconheçam como sua, pois reconhecê-la seria sinal de haverem superado os limites de sua própria classe, o que se tornava absolutamente impraticável. Portanto, sem o saber, gozam o espetáculo da própria vida como se fora alheia, estimulando deste modo uma forma literária que funcionava como espelho em que se miravam, incapazes de perceber a ironia latente na imagem refletida.
O Romance romântico continha uma imagem composta em duas camadas. Na primeira, oferecia-se à classe burguesa uma imagem tanto quanto possível otimista, cor-de-rosa, formada sempre do encontro entre duas personagens para realizar o desígnio maior da gente burguesa: o casamento. Oferecia-se aos burgueses a imagem do que pretendiam ser, do que sonhavam ser, e não do que eram na realidade.
Na segunda camada, entranhava-se uma involuntária crítica ao sistema todo, algumas vezes sutil, outras vezes declarada e violenta.
No século XIX, o Romance passa a dominar em toda linha, muito embora às vezes confundido com a novela, ou dividindo com ela seu poder de influência.
Cronologicamente, é Stendhal o primeiro grande representante do Romance europeu oitocentista – O VERMELHO E O NEGRO (1830) e A CARTUXA DE PARMA (1839) – ao dar-lhe dimensões psicológicas até então imprevistas, conferindo-lhe características modernas.
Entretanto é Balzac o criador do Romance moderno, graças à sua “Comédia Humana”, escrita entre 1829 e 1850, que constitui um amplo painel da sociedade burguesa do tempo. Por sua concepção romanesca autêntica, tornou-se o mestre dos que vieram depois (Flaubert, Zola etc), a ponto de dividir a história do Romance em duas fases: antes-de-Balzac e depois-de-Balzac.
Nos fins do século XIX, a Literatura russa irrompe com uma série de romancistas de peso, como Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev, Gogol, entre outros. Tais prosadores, notadamente o primeiro, trouxeram uma problemática e um tipo de análise psicológica em profundidade até então desconhecidas. A novidade fascinou toda a Europa e Dostoievski tornou-se mestre de uma das vertentes do Romance moderno, o da prospecção psicológica.
Marcel Proust opera nova revolução na estrutura do Romance no início do século XX. Sua obra EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (1913) leva mais fundo a sondagem psicológica de Dostoievski, graças à descoberta da memória como faculdade que apreende e fixa o fluxo vital, bem como do “tempo bergsoniano”, com duração existente fora dos limites do relógio ou do encadeamento sucessivo dos fatos.
Instala-se o caos narrativo, com a proposta de uma harmonia nova, estranha, feita de circunstâncias que a memória involuntária surpreende e trança ao sabor do subconsciente ou dos imponderáveis eventos cotidianos.
De Proust nasce a grande revolução operada no Romance moderno. A partir daí, o Romance ganha horizontes imprevisíveis.
Gide, vindo um pouco depois, alarga as conquistas da sondagem interior com a descoberta da “disponibilidade psicológica” que torna as personagens (e, consequentemente, o Romance) muito mais próximas da verdade vital que se quer apreender. Consiste no desaparecimento de toda noção de causa e efeito no comportamento da personagem. Esta age de um modo aqui e agora, e doutro modo mais adiante e em hora diferente, sempre disponível psicologicamente para o que der e vier.
Uma permanente improvisação conduz o Romance por um aparente beco-sem-saída. O resultado é uma aproximação cada vez maior com a vida, ânsia perene do Romance desde o seu nascimento.
Narrando a vida de seu herói durante 24 horas, em Dublin, tempo suficiente para revelar a massa de angústia e de saber enciclopédico que desabam continuamente sobre a cabeça do homem contemporâneo, o ULISSES (1922) de James Joyce, também contribui grandemente para uma nova metamorfose do Romance.
Procurando abranger a totalidade do mundo consciente e subconsciente, Joyce introduziu na estrutura do Romance o relativismo em sua forma extrema, a ponto de anular qualquer noção preconcebida de espaço e tempo.
Joyce transporta o caos do mundo para o Romance, com uma linguagem rebelde a todas as imposições normativas da gramática e da lógica; e, entregando-se às livres associações, põe-se a desintegrar a sintaxe tradicional e a experimentar soluções novas e esdrúxulas, simultaneamente com a criação de neologismos imprevistos.
Com Aldous Huxley a desintegração do Romance se acentua. Para o autor de CONTRAPONTO (1928) e ADMIRÁVEL MUNDO NOVO (1932), é clara uma idéia: não há, a rigor, dramas individuais. Só há problemas coletivos, feitos da soma dos transes individuais, de crises próprias de todos, jamais de cada um per si.
A angústia amorosa, financeira, filosófica, cresce quando um indivíduo encontra outro igualmente mergulhado em drama. A troca de problemas, ao invés de os diminuir, aumenta-os incomensuravelmente e ambos indivíduos saem mais carregados. O Romance complica ainda mais e ganha grandeza e seriedade trágicas, o que vem a ser a Epopeia dos tempos modernos.
De lá pra cá, conta-se uma série de escritores notáveis, como Thomas Mann, Virginia Wolf, Franz Kafka, William Faulkner, John Steinbeck, sendo este último um dos que muito influenciaram o movimento neo-realista português.
Em Portugal, o Romance aparece em meados do século XIX, acompanhando a tardia aceitação do gosto romântico. Garret, Herculano e outros cultivaram a narrativa histórica ao estilo de Walter Scott. Mas é Camilo Castelo Branco a principal figura da prosa de ficção romântica. Uma espécie de Balzac português, Castelo Branco procurou retratar a sociedade de seu tempo em uma série de narrativas passionais, históricas, de mistério, que certamente fazem dele o maior polígrafo da língua portuguesa.
Passando por Júlio Diniz, o Romance português encontra em Eça de Queiroz seu grande representante, dentro do Realismo ao estilo de Flaubert.
Depois disso, é preciso aguardar o Modernismo para que o Romance ganhe força novamente.

*Déa Márcia Simões
             - Introdução ao NeoRealismo em Portugal (Romance)