terça-feira, 20 de outubro de 2015

Getúlio Vargas segundo Leonel Brizola

Em abril de 1999, Leonel Brizola fez uma visita a Minas em solidariedade ao então governador Itamar Franco, no episódio da crise da moratória da dívida do Estado com o governo federal. Entrevistado pela Rede Minas de Televisão, o experiente político gaúcho traçou um perfil da personalidade do ex-presidente Getúlio Vargas.

– Como o Sr. definiria para o público mineiro a figura do ex-presidente Getúlio Vargas?
BRIZOLA – Tenho uma honra muito grande em me dirigir ao povo mineiro, porque nossos laços com Minas são muitos. O maior rio-grandense de todos, que nós consideramos - claro, era gaúcho porque nasceu lá nos pampas, mas de alma ele era mineiro - foi Getúlio Vargas. Getúlio era, de sentimento, de espírito, de maneira de ser, um mineiro. Tanto que Minas era o Estado que ele mais visitava, eram os políticos com quem ele mais convivia. A última visita da vida dele, talvez já pensando em morrer, foi a Minas.
– Como o Sr. justifica toda a controvérsia em torno da personalidade do ex-presidente Vargas?
BRIZOLA – Nosso país é muito grande, com uma população imensa, e é natural que não tenhamos um pensamento só, a respeito de qualquer assunto. Então naquela época o país se dividiu em relação a Getúlio, mas por fim ficou comprovado que, no curso do período em que ele esteve presente na vida política brasileira, ele sempre contou com o apoio da grande maioria, uma maioria massiva da população e da opinião dos nossos compatriotas. Mas havia uma oposição, que se articulava muito em função de interesses internacionais, porque o governo Vargas tinha um sentido nacionalista. Ele procurou criar um mercado interno, desenvolver o empresariado brasileiro e a indústria nacional. Trabalhou muito nessa direção e isso contrariava muitos interesses e eram esses interesses que subsidiavam os seus adversários. Cada vez mais a imprensa brasileira foi sofrendo influência desses interesses, e então foi criado todo um quadro de apreciações contrárias a ele.
– O Sr. poderia nos traçar um perfil humano do estadista Getúlio Vargas?
BRIZOLA – Vargas formou sua personalidade no ambiente republicano do Rio Grande do Sul. Estudou em São Paulo e depois foi secretário de Júlio de Castilhos. De uma certa forma, ele foi um discípulo tanto de Borges de Medeiros como de Júlio de Castilhos. Era um homem muito especial, que tinha uma fisionomia que falava, tinha expressão fisionômica. Ele expressava oitenta por cento do seu pensamento caçoando, brincando, contando histórias. Tinha muitíssimo humor, inclusive em relação aos seus amigos, a quem ele agradava contando aquelas histórias. Era uma pessoa que não tinha reações violentas de nenhuma forma. Por isso eu digo que tinha um temperamento mineiro, era tranqüilo, um homem suave. Tinha uma vida interior muito profunda, era um homem culto e muito lido. Teve seu tempo de deputado estadual, deputado federal, foi ministro da Fazenda e foi o coordenador da Revolução de 1930, de uma maneira também suave, deixando que os acontecimentos fossem se produzindo. Promoveu a modernização do Estado brasileiro, organizou a justiça eleitoral, a legislação trabalhista, enfim, no meu entender, Getúlio Vargas foi a maior personalidade da história política brasileira.
– Como o Sr. explica a atuação de Vargas em fatos polêmicos ocorridos durante o seu governo, como a prisão de Monteiro Lobato ou a extradição de Olga Prestes para a Alemanha nazista, por exemplo?
BRIZOLA – Eu era muito jovem naquela época e ainda não participava da vida política brasileira, mas, francamente, embora tenham ocorridos muitos fatos e episódios, de certa forma, desabonadores, no curso da presença dele no governo, eu, sinceramente, não creio que essas coisas tenham se passado por determinação dele. Posso afirmar que o presidente Vargas era um homem profundamente bom.
– Qual é a análise que o Sr. faz do golpe de 1937, que transformou Getúlio Vargas em ditador?
BRIZOLA – Em primeiro lugar, o golpe não foi só do presidente Vargas. Eu acho que aquele golpe de 37 vinha com Getúlio, sem Getúlio ou contra Getúlio. Eu atribuo às Forças Armadas aquela decisão. E Vargas, que era um político suave, tratou de ficar ali em cima daquele cavalo: foi puxando uma rédea, pisando no estribo, foi segurando, se firmou ali em cima e puxou. Então houve todo aquele poder do golpe, que aconteceu em função da guerra na Europa, que tinha os "integralistas", de direita, fortes, ameaçando e até atacando o Palácio Guanabara. Então Getúlio montou naquele cavalo e aproveitou para conceder direitos ao povo brasileiro. Por isso a classe dirigente, a elite privilegiada do Brasil e os grandes interesses internacionais ficaram contra Getúlio, porque ele usou aquela força em favor dos pequenos. 
Carta Testamento do presidente Getúlio Vargas.