sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

FIDEL E MANDELA

Depois que Nelson Mandela saiu da prisão, em 11 de fevereiro de 1990, o primeiro país que ele visitou foi Cuba, devido à grande cooperação do país caribenho com a luta de libertação dos negros, especialmente no sul da África, enviando soldados para Angola nas décadas de 1970-80, para combater as forças do exército do governo segregacionista da África do Sul.
Mandela foi até a ilha socialista agradecer um apoio fundamental que certamente nenhum outro país do mundo ofereceu. Além do auxílio logístico e operacional na guerra de independência angolana, a presença dos combatentes cubanos de fato acelerou o processo de queda do regime do apartheid sul-africano. 
Nesta ocasião de sua visita a Cuba, Mandela fez questão de lembrar que o povo irmão do Caribe sempre agiu altruisticamente, enviando também professores e profissionais de saúde para o esforço de resistência e reconstrução da África.

         

terça-feira, 29 de novembro de 2016

OS 60 ANOS DA EXPEDIÇÃO DO GRANMA


Foi no final de novembro de 1956 que uma expedição com 82 combatentes do "Movimento 26 de Julho" aglomerada em um pequeno iate - o famoso Granma, projetado para acomodar 12 pessoas - partiu para uma missão histórica, do em uma viagem do porto de Túxpan, no México, até a praia Las Coloradas, em Cuba.
Após navegar por vários dias em condições de carência e penúria, com uma atracagem forçada desastrosa em uma área pantanosa quase intransponível, o mini-exército de Fidel Castro foi então detectado, perseguido e metralhado por aviões da guarda-costeira, assim que chegou em solo cubano.
O grupo guerrilheiro se espalhou e foi aos poucos se desintegrando, na medida em que seus soldados eram cercados e mortos pelas tropas do Exército cubano que já os esperavam ao longo da costa. Um pelotão formado por Che Guevara, com apenas 4 homens que sobraram, subiu em direção às montanhas da Sierra Maestra para se encontrar com o grupo de Fidel, que contava com apenas 7 soldados.
         Em poucos dias, dos 82 revolucionários do Granma que zarparam do México, restaram apenas 11. Assim começava a Revolução Cubana, que triunfaria 2 anos depois.
"Nuestra grandeza a veces no se ve, porque es invisible para algunos, no se transa, porque no tiene valor comercial, no se esconde, porque es digna y pura. Pero, sí, se siente: en los pueblos liberados, en los enfermos atendidos y mejorados, en las personas alfabetizadas y educadas, en el deportista formado, en el artista expuesto. Y también la sienten nuestros enemigos. Y la sienten tanto que todos los días han estado presente los planes para acabar con esta grandeza. Esa es la razón por las cuales nos odian, por la idea que representamos, por el ejemplo que hemos dado. Hemos demostrado que con fuerza de voluntad y coraje, otro mundo, sí, es posible" 
(Fidel Castro).

quarta-feira, 27 de abril de 2016

POMPÉIA, O GOLEIRO VOADOR

Sou torcedor do América F.C. do Rio de Janeiro desde pequeno e isso quer dizer muita coisa para quem começa 2013 com 64 anos. Posso dizer que sou americano de coração, embora isso pareça anacronismo para as gerações de hoje, que olham para os times do Rio e só veem Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco. Mesmos alguns antigos torcedores do mequinha deixaram de lado as tradições do pavilhão rubro, abdicaram de sua história e bandearam-se para um dos grandes do Rio.
Minha atenção para o América veio de meu pai. Nos domingos, lá em Vila Isabel, meu pai e meu tio disputavam, quase a tapa, eu e meu irmão. Eu recebi, de meu pai, o uniforme do América, comprado na Superball e meu irmão, de meu tio, o do Vasco. No quintal brincávamos de América e Vasco, o clássico da paz, assim denominado por ter selado a pacificação no futebol carioca em 1937.
Mais tarde, já com oito anos, levado por meu pai, via os jogos do América no estádio da Rua Campos Sales. Sentia-me importante sentado na arquibancada junto com aquele mar de camisas vermelhas. Olhava com aflição e atenção os jogos. Notava a elegância de Amaro, a velocidade de Nilo, a classe de João Carlos. E o que falar da emoção dos gols de cabeça de Quarentinha, da calma de Djalma Dias ao desfazer, dentro da área, as jogadas dos adversários?
Mas quem mais me impressionava era o goleiro. Diferente do restante do time, que usava a camisa vermelha e o calção branco, Pompéia se vestia de negro ou de cinza e trazia no peito o escudo do mequinha. Era esguio, alto, de uma flexibilidade ímpar. Sua elasticidade chamava a atenção. Eu não tirava os olhos dele, entusiasmado com os seus voos, as suas defesas mirabolantes que levaram o narrador esportivo Waldir Amaral a apelidá-lo de Constellation. Outros apelidos se seguiram: Ponte Aérea, Caravelle, Fortaleza Voadora. Todos cabiam como uma luva naquele homem simples, nascido em Itajubá, Minas Gerais.
Esse extraordinário goleiro iniciou carreira no circo, onde desenvolveu sua capacidade de impulsão, experiência que deu a ele a condição de ser um goleiro acrobático. Suas defesas mexiam com a plateia e mereceram de Nelson Rodrigues uma crônica em um América e Bangu:
“Foi, então, que surgiu Pompéia, como uma bastilha inexpugnável. Pompéia! Eis o que o América tem e os outros clubes, não: − um Pompéia. Que bela e emocionante figura! É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais acrobático do mundo. Nada tem de simples: − ele complica tudo. Em primeiro lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram geniais. (...) Ele é o espetáculo”.
O apelido Pompéia vem da sua infância. Desatento aos estudos, gostava mesmo era de desenhar e o fazia bem, colocando no papel os personagens Popeye e Olívia Palito. Os colegas que viam os desenhos passaram a chamá-lo de Pompéia, pela dificuldade de pronunciar o nome do marinheiro. Pompéia nasceu José Valentim da Silva, em 27 de setembro de 1934, dia de São Cosme e Damião.
Iniciou sua carreira esportiva como centroavante no clube Itajubá, time composto de funcionários de uma fábrica de material bélico que participava do campeonato da Segunda Divisão mineira. Mais tarde, se transferiu para outro clube da cidade, o São Paulo, ainda como centroavante. Em um jogo em Três Pontas, o goleiro do São Paulo adoeceu e Pompéia foi escalado no gol. Saiu-se tão bem que chamou a atenção de todos, foi a grande sensação do jogo. Mais tarde, numa partida contra o Bonsucesso do Rio, o goleiro titular do São Paulo entusiasmou a todos, inclusive ao juiz da partida, também olheiro dos times do Rio, que convidou-o para treinar no Bonsucesso e jogar na Cidade Maravilhosa.
Atraído pelo convite, o goleiro não pestanejou e decidiu ir para o Rio. Apresentou-se em Teixeira de Castro e assinou seu primeiro contrato profissional em abril de 1953. No ano seguinte, transferiu-se para o América, onde permaneceu por 11 anos. Seu aprendizado da profissão foi feito com a ajuda do seu primeiro técnico. Alfinete, técnico do Bonsucesso, levava-o para assistir aos jogos do Vasco e do Fluminense, para ver Barbosa e Castilho atuarem. Mas não copiou o estilo de nenhum deles. Construiu um perfil próprio, no qual a estética das defesas se sobrepunha às dificuldades dos chutes. Em qualquer bola desenhava uma cena entre o belo e o rocambolesco, lançando-se sobre a bola de maneira espetacular. Para uns, era presepeiro, para outros, excelente goleiro.
Quando estava no seu dia, tomava conta do espetáculo e não tinha para ninguém, fazia das tardes de domingo o seu momento de fama e os comentários das resenhas do dia seguinte eram elogiosos. Com a estética do goleiro criada por ele, deixou como herança uma jogada, a ponte aérea. O nome vinha da novidade da época que era a ponte aérea entre Rio e São Paulo. Inventada por ele, hoje se tornou em jogada comum dos goleiros. Essa é apenas uma das contribuições de Pompéia. Porém, mais importante do que isso é a construção de uma nova forma de agarrar no futebol, trazendo para as partidas momentos de comédia de arte ou de tragédia cômica, subvertendo a forma tradicional de comportamento dos goleiros e alegrando a plateia, que ria e sofria com seus voos.
Essa marca particular de Pompéia levou-o à consagração como goleiro titular do América Futebol Clube (campeão carioca de 1960), atuando também como titular, em 1957, pela seleção carioca. 
Pompéia chegou à seleção brasileira, quando a CBD montou um combinado para defender o Brasil em jogos contra seleções sul-americanas. 
Diversas vezes ficava patente o racismo, quando se associava sua elasticidade a dos macacos.
Em seu primeiro jogo pelo América já despertou entusiasmo. O América jogava um torneio quadrangular em Lima, no Peru, do qual também participa o Santos de São Paulo e, no jogo final entre os dois clubes, Pompéia defendeu um pênalti batido por ninguém menos que Pepe, que assustava com a potência de seu chute todos os goleiros. Com essa apresentação de gala passou a dividir o gol do mequinha com Ari em diversas jornadas, mas sendo o titular em 16 das 22 partidas disputadas pelo América no campeonato de 1960.
Seu nome era dito, cantado, anunciado nas bancas da cidade nas segundas e sua estética de goleiro ganhou fama. Vários pompéias surgiram no Brasil e seus voos levaram-no longe. Jogou no Porto de Portugal e em vários clubes da Venezuela. E foi na Venezuela que terminou sua carreira de goleiro esteta. 
Em 1969, num jogo entre o seu clube, o Desportivo Português, e o Real Madrid, depois de agarrar um chute difícil, que no rebote a bola foi novamente chutada contra a sua cabeça, perdeu uma de suas vistas, deixando a outra também prejudicada. O chute foi dado por ninguém menos que Di Stefano. Com isso, teve que abandonar o futebol.
Com a impossibilidade de continuar a atuar, Pompéia perdeu a alegria. Seu colega Amaro ainda tentou levá-lo para o Bonsucesso como preparador de goleiros, mas nada mais deu certo na vida do grande Constellation. Na rua da amargura, sozinho e perdido, voltou-se para a bebida e morreu em maio de 1996, em um quarto de um manicômio, olhando para uma bola.
Amargou na vida e na morte a sina dos goleiros, ditada na célebre máxima de autoria desconhecida: “o goleiro é tão maldito que onde ele joga não nasce nem grama”.


*Antônio Edmilson Rodrigues 
(Publicado na Revista Carta Maior em 2013).