quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

GENTE QUE CORRE

Chico Buarque / Juliana Paes / Camila Pitanga / Giovanna Antonelli / Bruno Gagliasso & Giovanna Ewbank / Bruna Linzmeyer / Deborah Secco / Cauã Raymond.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

FIDEL E MANDELA

Depois que Nelson Mandela saiu da prisão, em 11 de fevereiro de 1990, o primeiro país que ele visitou foi Cuba, devido à grande cooperação do país caribenho com a luta de libertação dos negros, especialmente no sul da África, enviando soldados para Angola nas décadas de 1970-80, para combater as forças do exército do governo segregacionista da África do Sul.
Mandela foi até a ilha socialista agradecer um apoio fundamental que certamente nenhum outro país do mundo ofereceu. Além do auxílio logístico e operacional na guerra de independência angolana, a presença dos combatentes cubanos de fato acelerou o processo de queda do regime do apartheid sul-africano. 
Nesta ocasião de sua visita a Cuba, Mandela fez questão de lembrar que o povo irmão do Caribe sempre agiu altruisticamente, enviando também professores e profissionais de saúde para o esforço de resistência e reconstrução da África.

         

terça-feira, 29 de novembro de 2016

OS 60 ANOS DA EXPEDIÇÃO DO GRANMA


Foi no final de novembro de 1956 que uma expedição com 82 combatentes do "Movimento 26 de Julho" aglomerada em um pequeno iate - o famoso Granma, projetado para acomodar 12 pessoas - partiu para uma missão histórica, do em uma viagem do porto de Túxpan, no México, até a praia Las Coloradas, em Cuba.
Após navegar por vários dias em condições de carência e penúria, com uma atracagem forçada desastrosa em uma área pantanosa quase intransponível, o mini-exército de Fidel Castro foi então detectado, perseguido e metralhado por aviões da guarda-costeira, assim que chegou em solo cubano.
O grupo guerrilheiro se espalhou e foi aos poucos se desintegrando, na medida em que seus soldados eram cercados e mortos pelas tropas do Exército cubano que já os esperavam ao longo da costa. Um pelotão formado por Che Guevara, com apenas 4 homens que sobraram, subiu em direção às montanhas da Sierra Maestra para se encontrar com o grupo de Fidel, que contava com apenas 7 soldados.
         Em poucos dias, dos 82 revolucionários do Granma que zarparam do México, restaram apenas 11. Assim começava a Revolução Cubana, que triunfaria 2 anos depois.
"Nuestra grandeza a veces no se ve, porque es invisible para algunos, no se transa, porque no tiene valor comercial, no se esconde, porque es digna y pura. Pero, sí, se siente: en los pueblos liberados, en los enfermos atendidos y mejorados, en las personas alfabetizadas y educadas, en el deportista formado, en el artista expuesto. Y también la sienten nuestros enemigos. Y la sienten tanto que todos los días han estado presente los planes para acabar con esta grandeza. Esa es la razón por las cuales nos odian, por la idea que representamos, por el ejemplo que hemos dado. Hemos demostrado que con fuerza de voluntad y coraje, otro mundo, sí, es posible" 
(Fidel Castro).

terça-feira, 13 de setembro de 2016

What did Louis Armstrong have to do with tennis?

Each summer, thousands of fans enter Louis Armstrong Memorial Stadium in Flushing Meadows Park to watch the U.S. Open Championship. A great number of those in attendance probably wonder at some point, “What did Louis Armstrong have to do with tennis?”
The answer, quite frankly, is nothing. But jazz’s greatest genius had everything to do with the surrounding Corona, Queens neighborhood. He and his wife Lucille Wilson Armstrong moved to Corona in 1943 and stayed until the end of their lives.“We stay put,” Armstrong wrote in 1970. “After all, we have a very lovely home. It’s a whole lot of comfort and happiness.”
Armstrong became a fixture in Queens during his 28 years on 107th Street. After he passed away on July 6, 1971, the community wanted to do something in his honor. In September of that year, I.S. 227 was named the Louis Armstrong School, a nice touch, but Lucille believed her husband deserved something larger; he deserved a stadium.
And on July 4, 1973—40 years after moving to Corona—she got her wish when the Singer Bowl, built for the 1964 World’s Fair (Louis performed there that year--see Jack Bradley photo below of Louis there wearing a Native American headdress!), was renamed Louis Armstrong Memorial Stadium and christened in great style with an all-star concert featuring legends such as Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Dave Brubeck and others. “I feel like I’m on Cloud Nine,” Lucille told the Daily News.
However, the joy was short-lived. The following year, while planning a follow-up concert, Lucille learned that the stadium was denied a permanent certificate of occupancy and would close by the end of August “because of structural deficiencies.” Newspapers began carrying headlines such as “City to Close Armstrong Bowl” and “Act to Save Satchmo’s Stadium.”
Lucille needed help and would receive it from an unlikely source: United States Tennis Association - USTA (Official) President W.E. “Slew” Hester. While flying over Queens in 1976, Hester saw the run-down Armstrong Stadium from overhead and immediately envisioned it as a home for the U.S. Open, which had been held at the private West Side Tennis Club for the previous 54 years. With the West Side contract due to expire in 1977, Hester set his sights on refurbishing the abandoned Armstrong Stadium and turning Flushing Meadows Park into the site of the U.S. National Tennis Center.
It would take $12 million dollars and ten months time to construct but by the time of the 1978 U.S. Open, 20,000 fans watched Jimmy Connors and Chris Evert win the singles titles at the brand new Louis Armstrong Memorial Stadium.
In a classy gesture, Hester not only kept Louis’s name on the stadium, but he invited Lucille to the groundbreaking ceremony, well as having her speak at the opening of the stadium, as depicted in the photos accompanying this post.
Last night, the USTA played "What a Wonderful World" after the final match at Louis Armstrong Memorial Stadium. After a final ceremonial event today, the stadium will be demolished BUT it will be rebuilt and a brand new Louis Armstrong Stadium will open in 2018! But now you know what to answer the next time someone asks, "Why is a tennis stadium named after Louis Armstrong?"
The Louis Armstrong House Museum - located just seven blocks away - has been open since 2003 and welcomes thousands of visitors from around the world each year, teaching them not only about the importance of Armstrong’s music but also why he loved his Queens neighborhood so much. One trip there and any questions about why a tennis stadium is named after a jazz trumpeter instantly disappear.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

MINHA CRENÇA

É uma bênção especial pertencer entre aqueles que podem dedicar suas melhores energias para a contemplação e exploração de coisas objetivas e atemporais. Quão feliz e grato eu sou por ter recebido essa bênção, que dá um grande grau de independência em relação ao destino pessoal de alguém e a atitude de seus contemporâneos. No entanto, essa independência não deve nos habituar à consciência dos deveres que constantemente nos prendem ao passado, presente e futuro da humanidade em geral.
Nossa situação na terra parece estranha. Cada um de nós aparece aqui, involuntariamente e sem ser convidado, para uma estadia curta, sem saber o porquê e para quê. Em nossa vida diária sentimos apenas que o homem está aqui para o bem dos outros, para aqueles a quem amamos e por muitos outros seres cujo destino está ligado com o nosso. Muitas vezes me perturba a ideia de que a minha vida é baseada em grande parte no trabalho dos meus companheiros seres humanos, e estou ciente da minha grande dívida para com eles.
Eu não acredito no livre-arbítrio. Palavras de Schopenhauer: “O homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”, me acompanham em todas as situações ao longo de minha vida e me reconciliam com as ações dos outros, mesmo que elas sejam bastante dolorosas para mim. Esta consciência da falta de livre arbítrio me impede de levar a mim mesmo e aos meus colegas muito a sério como indivíduos de ação e decisão, e de perder o meu temperamento.
Nunca cobicei riqueza e luxo e até mesmo os desprezo de certa forma. Minha paixão pela justiça social muitas vezes me levou a um conflito com as pessoas, assim como a minha aversão a qualquer obrigação e dependência que eu não considero absolutamente necessárias. Eu tenho um grande respeito pelo indivíduo e uma aversão insuperável pela violência e o fanatismo. Todos estes motivos me fizeram um pacifista apaixonado e antimilitarista. Sou contra qualquer chauvinismo, mesmo sob o disfarce de mero patriotismo.
Privilégios com base na posição e propriedade sempre me pareceram injustos e perniciosos, assim como qualquer culto exagerado à personalidade. Eu sou um adepto do ideal da democracia, embora eu saiba bem as fraquezas da forma democrática de governo. A igualdade social e a proteção econômica do indivíduo sempre me pareceram os objetivos comuns importantes do estado.
Embora eu seja um solitário típico na vida diária, a minha consciência de pertencer à comunidade invisível daqueles que lutam pela verdade, beleza e justiça me impede de me sentir isolado.
A experiência mais bela e mais profunda que um homem pode ter é o sentido do mistério. É o princípio fundamental da religião, bem como de todo esforço sério na arte e na ciência. Aquele que nunca teve essa experiência parece-me que, se não está morto, então, está pelo menos cego.
Perceber que por trás de tudo o que pode ser experimentado há uma coisa que a nossa mente não pode compreender, cuja beleza e magnificência nos alcança apenas indiretamente: isso é religiosidade. Neste sentido, sou religioso. Para mim, basta questionar estes segredos e tentar humildemente entender com a minha mente uma mera imagem da estrutura elevada de tudo que existe.

*Albert Einstein

sexta-feira, 20 de maio de 2016

QUEM GOVERNA O MUNDO?

NOAM CHOMSKY

 Quando perguntamos “Quem governa o mundo?” em geral adotamos a convenção padronizada de que, nos assuntos mundiais, os atores são os Estados, principalmente os grandes poderes, e consideramos suas decisões e as relações entre eles. Isso não está errado. Mas seria bom mantermos em mente que esse nível de abstração pode também ser altamente enganador.
           Os Estados, é claro, têm estruturas internas complexas, e as escolhas e decisões das lideranças políticas são fortemente influenciadas pelas concentrações internas de poder, enquanto as populações em geral são frequentemente marginalizadas. Isso é verdade até mesmo para as sociedades mais democráticas e obviamente para as outras. 
          Não poderemos chegar a um entendimento realista sobre quem governa o mundo enquanto ignorarmos os “senhores da humanidade”, como foram chamados por Adam Smith. Em outros tempos, eram os comerciantes e donos de fábricas da Inglaterra; nos nossos, os conglomerados multinacionais, enormes instituições financeiras, impérios do varejo e similares.
            Ainda segundo Adam Smith, também é aconselhável considerar a “máxima vil” à qual os “senhores da humanidade” estão dedicados: “Tudo para nós e nada para os outros” – uma doutrina conhecida também como luta de classes, amarga e incessante, frequentemente unilateral, muito em prejuízo da população dos países e do mundo.

PODER OCIDENTAL SOB PRESSÃO

O problema de quem domina o mundo leva então, de vez, a preocupações tais como a ascensão da China ao poder e seu desafio aos Estados Unidos e à “ordem mundial”; a nova guerra fria que se desenvolve na Europa Oriental; a Guerra Global ao Terror. a hegemonia norte-americana e o declínio dos Estados Unidos, e uma série de considerações semelhantes.
Os desafios enfrentados pelo poder ocidental no início de 2016 são frequentemente sintetizados no quadro convencional por Gideon Rachman, colunista-chefe de relações exteriores no Financial Times de Londres. Ele começa por rever o cenário ocidental da ordem mundial: “Desde o fim da Guerra Fria, o poder militar avassalador dos EUA tem sido o fato central da política internacional”. 
Isso é particularmente crucial em três regiões: no Leste da Ásia, onde “a Marinha dos EUA acostumou-se a tratar o Pacífico como um ‘lago americano’”; na Europa, onde a OTAN – significando os Estados Unidos, que respondem por assombrosos três-quartos dos gastos militares [da aliança]” – “garante a integridade territorial de seus estados-membros”; e no Oriente Médio, onde as gigantescas bases navais e aéreas dos EUA “existem para proteger os amigos e intimidar os rivais”.
O problema da ordem mundial hoje, continua Racman, é que “essas ordens de segurança estão agora sendo desafiadas nas três regiões”, por causa da intervenção russa na Ucrânia e na Síria, e porque a China está transformando seus mares vizinhos, de lago norte-americano, em “águas claramente contestadas”. A pergunta fundamental das relações internacionais, então, é se os Estados Unidos poderiam “aceitar que outros grandes poderes pudessem ter algum tipo de zona de influência em sua vizinhança.” Rachman pensa que poderiam, por razões de “difusão do poder econômico através do mundo – combinada com simples senso comum.”
Há, por certo, modos de olhar o mundo a partir de diferentes pontos de vista. Mas, vamos nos ater a essas três regiões, com certeza criticamente importantes.

O LESTE DA ÁSIA

Começando pelo “lago norte-americano”, pode provocar alguma surpresa um relato de meados de dezembro de 2015, segundo o qual “um bombardeiro B-52 norte-americano, em missão rotineira sobre o Mar do Sul da China, voou involuntariamente para dentro da área de 3,5 quilômetros de uma ilha artificial construída pela China, como declarou um oficial sênior da defesa, acirrando uma questão que divide Washington e Pequim.” 
Quem está familiarizado com os sinistros setenta anos de registros da era nuclear sabe bem o que esse é o tipo de incidente, que várias vezes esteva a ponto de levar à deflagração final de uma guerra nuclear. Mas mesmo quem não apoia as ações agressivas e provocadoras da China no Mar do Sul da China notará que o incidente não envolveu um bombardeiro chinês, com capacidade nuclear, no Caribe, ou ao largo da costa da Califórnia, onde a China — para sorte do mundo — não tem pretensões de estabelecer um “lago chinês.”
O líderes chineses compreendem muito bem que as rotas de comércio marítimo de seu país estão cercadas por poderes hostis — do Japão ao Estreito de Málaca e além, apoiados pela avassaladora força militar dos EUA. Por isso, a China procura expandir-se para o oeste, com grandes investimentos e movimentos cuidadosos para alcançar integração. 
Em parte, esses desenvolvimentos estão dentro do âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), que inclui os países da Ásia Central e a Rússia, e em breve a Índia e o Paquistão, com o Irã como observador – um status negado aos Estados Unidos, que foram também chamados a fechar todas as suas bases militares na região. 
A China está construindo uma versão moderna da velha Rota da Seda, com a intenção não apenas de integrar a região sob influência chinesa, mas também de alcançar as zonas produtoras de petróleo da Europa e do Oriente Médio. Está investindo enormes somas para criar um sistema asiático de energia e comércio integrado, com oleodutos e linhas ferroviárias extensas e de alta velocidade.
Uma das peças do programa é uma estrada que corta algumas das mais altas montanhas do mundo e chega até o novo porto construído pela China em Gwadar, no Paquistão, para proteger os navios petroleiros contra a potencial interferência dos EUA. O programa poderá também, esperam a China e o Paquistão, incentivar o desenvolvimento industrial do Paquistão, que os Estados Unidos não facilitaram apesar da ajuda militar maciça.
Pequim ainda procura incentivar o Paquistão a reprimir o terrorismo doméstico, uma questão séria para a China na província ocidental de Xinjiang. Gwadar será parte do “colar de pérolas” da China, formado por bases que estão sendo construídas no Oceano Índico, com objetivos comerciais mas também para uso militar, na expectativa de que a China possa algum dia, pela primeira vez na era moderna, ser capaz de projetar seu poder até o Golfo Pérsico.
Todas estas ações se mantêm imunes ao poder militar avassalador de Washington, para não dizer da aniquilação por uma guerra nuclear, que destruiria igualmente os Estados Unidos.
Em 2015, a China criou também o Banco Asiático de Investimentos em Infra-Estrutura (AIIB), do qual é o principal acionista. Cinquenta e seis nações participaram de sua abertura em Pequim, em junho, incluindo aliados dos EUA como Austrália, Grã Bretanha e outros — que aderiram desafiando os desejos de Washington. Estiveram ausentes Estados Unidos e Japão. Alguns analistas acreditam que o novo banco pode tornar-se um competidor das instituições de Bretton Woods (o FMI e o Banco Mundial), nas quais os Estados Unidos têm poder de veto. Há também algumas expectativas de que a Organização de Cooperação de Xangai possa eventualmente tornar-se uma contrapartida da OTAN.

A EUROPA ORIENTAL

Examinemos a segunda região: a Europa Oriental. Há uma crise sendo fermentada na fronteira da OTAN com a Rússia. Não é uma questão menor. Em seu estudo acadêmico iluminador e sensato sobre a região, Frontline Ukraine: Crisis in the Borderlands, Richard Sakwa escreve – de modo muito plausível – que a “guerra entre Rússia e Geórgia de agosto de 2008 foi na verdade a primeira das ‘guerras para deter o crescimento da OTAN’; a crise da Ucrânia, de 2015, é a segunda. Não está claro se a humanidade sobreviveria à terceira.”
O Ocidente vê o crescimento da OTAN como um fato benigno. Não por acaso a Rússia, a maioria do Sul Global e algumas vozes ocidentais destacadas têm uma opinião diferente. George Kennan logo alertou de que o crescimento da OTAN é um “erro trágico”, e foi acompanhado por políticos seniores norte-americanos, numa carta aberta à Casa Branca, que descrevem o movimento como “um erro político de proporções históricas”.
A crise atual tem suas origens em 1991, com o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética. Havia então duas visões contrastantes sobre um novo sistema de segurança e economia política na Eurásia. Nas palavras de Sakwa, uma visão era a da “‘Europa mais extensa’, que teria União Europeia em seu núcleo, mas tenderia a coincidir com a comunidade política e de segurança Euro-Atlântica. Do outro lado havia a ideia de uma ‘Europa Maior’, uma visão de continente europeu estendendo-se de Lisboa até Vladivostok, com múltiplos centros, incluindo Bruxelas, Moscou e Ancara, mas com um propósito comum de superar as divisões que tradicionalmente flagelaram o continente.”
O líder soviético Mikhail Gorbachev foi o maior defensor da Europa Maior, um conceito que teve também raízes europeias no gaullismo e outras iniciativas. Contudo, à medida em que a Rússia entrou em colapso, pressionada pelas devastadoras reformas de mercado dos anos 1990, a visão diluiu-se, para renovar-se apenas à medida em que a Rússia começou a se recuperar e buscar um lugar na cena mundial sob Vladimir Putin, que junto com seu parceiro Dmitry Medvedev tem repetidamente “demandado a unificação geopolítica de toda a ‘Europa Maior’, de Lisboa a Vladivostok, para criar uma genuína ‘parceria estratégica’”.
Essas iniciativas foram “saudadas com polido desprezo”, observa Sakwa, vistas como “pouco mais que uma cobertura para o estabelecimento de uma ‘Rússia Maior’ por dissimulação” e um esforço para fincar uma cunha entre a América do Norte e a Europa Ocidental. Tais preocupações têm origem nos medos, do início da Guerra Fria, de que a Europa posa tornar-se uma “terceira força” independente de ambos, o grande e o pequeno superpoder, movendo-se em direção a vínculos mais próximos do último (como pode ser visto na Ostpolitik de Willy Brandt e outras iniciativas).
A resposta ocidental ao colapso da Rússia foi triunfalista. O fato foi aclamado como sinal do “fim da história”, a vitória final da democracia capitalista ocidental, quase como se a Rússia estivesse sentido instruída a voltar ao seu status pré-Primeira Guerra Mundial — uma colônia econômica virtual do Ocidente. A ampliação da OTAN começou imediatamente, violando garantias dadas a Gorbachev. Elas estabeleciam que as forças do bloco não se deslocariam “uma só polegada para leste”, em contrapartida à concordância, pelo presidente russo, a  que a Alemanha unificada se tornasse membro da OTAN – uma concessão extraordinária, à luz da história. A hipótese de que a OTAN pudesse expandir-se para além da Alemanha não foi discutida com Gorbachev, ainda que fosse considerada em privado.
Logo, a OTAN começou a mover-se além, até as fronteiras da Rússia. A missão geral da aliança foi mudada oficialmente, para um mandato de proteção a “infra-estrutura crucial” do sistema global de energia, rotas marítimas e oleodutos, o que deu dimensões globais à sua área de  operação. Além disso, após a revisão, pelo Ocidente, da agora amplamente proclamada doutrina de “responsabilidade de proteger” — nitidamente diversa da versão oficial das Nações Unidas –, a OTAN também pode servir, agora, como uma força de intervenção sob o comando dos EUA.
Particularmente preocupantes para a Rússia são os planos de expandir a OTAN para a Ucrânia. Esses planos foram articulados explicitamente na cúpula da aliança realizada em Bucareste em abril de 2008, quando a Geórgia e a Ucrânia receberam promessa de eventual admissão. As palavras foram perfeitamente claras: “A OTAN dá as boas vindas às aspirações Euro-Atlânticas da Ucrânia e da Geórgia de tornarem-se membros. Concordamos hoje que esses países se tornarão membros da OTAN.” Com a vitória de candidatos pró-ocidentais na “Revolução Laranja” da Ucrânia, em 2004, o representante do Departamento de Estado Daniel Fried correu lá para “enfatizar o apoio dos EUA às aspirações à OTAN e Euro-Atlânticas da Ucrânia”, como revelou documento do WikiLeaks.
As preocupações russas são facilmente compreensíveis. Elas são detalhadas pelo acadêmico de relações internacionais John Mearsheimer na publicação líder do establishment norte-americano, Foreign Affairs. Ele escreve que “a raiz da atual crise [sobre a Ucrânia] é a expansão da OTAN e a determinação de Washington de mover a Ucrânia para fora da órbita de Moscou e integrá-la ao ocidente”, o que Putin viu como “ameaça direta aos interesses vitais da Rússia”.
“Quem pode culpá-lo por isso?”, pergunta Mearsheimer, apontando que “Washington pode não gostar da posição de Moscou, mas deveria entender a lógica por trás dela.” Isso não deveria ser muito difícil. Afinal, como todo mundo sabe, “os Estados Unidos não tolera que grandes poderes distantes finquem forças militares em qualquer parte do hemisfério ocidental, quanto mais em suas fronteiras.”
De fato, a posição dos EUA é muito mais forte. Eles não toleram o que é oficialmente chamado de “rebeldia bem sucedida” à Doutrina Monroe de 1823, que declarou (mas poderia ainda não implementar) o controle dos EUA sobre as Américas. E um pequeno país que assuma tal rebeldia bem sucedida pode estar sujeito aos “terrores da terra” e um embargo esmagador – como ocorreu com Cuba. Não é necessário perguntar como reagiriam os Estados Unidos caso os países da América Latina se unissem ao Pacto de Varsóvia, planejando incorporar também o México e o Canadá. A mera sugestão de tentar qualquer passo nesse sentido teria sido “encerrada com preconceito extremo”, para adotar o jargão da CIA.
Como no caso da China, não é necessário defender razões e ações de Putin para entender a lógica por trás delas. Como no caso da China, há muita coisa em jogo. São questões de sobrevivência.

O MUNDO ISLÂMICO

Voltemo-nos agora para a terceira região de grande interesse, o mundo islâmico (em sentido amplo), também cenário da Guerra Global ao Terror (GWOT) que George W. Bush declarou em 2001, depois do ataque terrorista de 9/11. Para ser mais preciso, re-declarou. A GWOT foi declarada pelo presidente Reagan quando assumiu o poder, com retórica febril sobre uma “praga espalhada por depravados opositores à própria civilização” (como definiu o então presidente) e uma “volta à barbárie na era moderna” (nas palavras de George Shultz, seu secretário de Estado). 
A GWOT original foi silenciosamente removida da história. Ela transformou-se rapidamente numa guerra terrorista assassina e destrutiva que afetou a América Central, a África do Sul e o Oriente Médio, com impiedosas repercussões no presente, levando inclusive à condenação dos Estados Unidos na Corte Mundial (rejeitada pelos EUA). De qualquer modo, não é a narrativa  certa para a história, de modo que desapareceu.
O “sucesso” da versão Bush-Obama do GWOT pode ser prontamente avaliado, numa observação direta. Quando a guerra foi declarada, os alvos terroristas estavam confinados a uma pequena região do Afeganistão tribal. Eles eram protegidos por afegãos, a maioria dos quais não gostava deles e os desprezava, sob o código tribal de hospitalidade que desafiou os norte-americanos quando camponeses pobres recusaram-se a “entregar Osama bin Laden pela quantia, para eles astronômica, de 25 milhões de dólares.”
Há boas razões para acreditar que uma ação policial bem construída, ou mesmo sérias negociações diplomáticas com o Talibã poderiam ter colocado os suspeitos dos crimes de 9/11 nas mãos dos norte-americanos para julgamento e condenação. Mas essas opções não estavam colocadas. Ao contrário, a escolha era de violência em larga escala – não com o objetivo de derrubar o Talibã (isso veio depois), mas de deixar claro o desprezo dos EUA pelas tentativas de oferta do Talibã de extraditar Bin Laden. Não sabemos o quão sérias eram essas tentativas, uma vez que a possibilidade de explorá-las nunca foi levada adiante. Ou talvez os EUA estivessem apenas “tentando mostrar seus músculos, marcar uma vitória e assustar o mundo inteiro. Eles não se preocupam com o sofrimento dos afegãos ou quantas pessoas nós vamos perder.”
Essa foi a avaliação do líder anti-Talibã Abdul Haq, altamente respeitado, um dos muitos oposicionistas que condenaram a campanha de bombardeamento norte-americana lançada em outubro de 2001 como “um grande revés” a seus esforços de derrubar o Talibã desde dentro, um objetivo que considerava possível. Sua avaliação é confirmada por Richard A. Clarke, presidente do Grupo de Segurança Contraterrorista da Casa Branca durante a presidência de George W. Bush, quando foram feitos os planos de ataque ao Afeganistão.
Segundo a descrição de Clarke, quando informado de que o ataque poderia violar as leis internacionais “o presidente gritou na estreita sala de reunião, ‘não me interessa o que dizem os advogados internacionais, nós vamos chutar a bunda de alguém”. Houve também forte oposição ao ataque pelas maiores organizações que trabalhavam no Afeganistão, alertando que milhões de pessoas encontravam-se à beira da fome e as consequências poderiam ser terríveis. As consequências para os pobres afegãos, anos depois, mal precisam ser revistas.
O próximo alvo a ser golpeado era o Iraque. A invasão EUA-Reino Unido, sem qualquer pretexto realmente crível, é o maior crime do século XXI. A invasão levou à morte de centenas de milhares de pessoas num país onde a sociedade civil já havia sido devastada pelas sanções norte-americanas e britânicas, vistas como “genocidas” pelos dois notórios diplomatas internacionais que as administravam e que, por essa razão, renunciaram a seus postos, em protesto. A invasão também gerou milhões de refugiados, destruiu grande parte do país e instigou um conflito sectário que está agora destroçando o Iraque e toda a região. É um fato espantoso sobre nossa cultura moral e intelectual que, em círculos informados e iluminados, ela possa ser chamada, suavemente, de “a liberação do Iraque”.
Pesquisas do Pentágono e do ministério de Defesa britânico revelaram que apenas 3% dos iraquianos consideravam legítimo os EUA exercerem papel de segurança em sua vizinhança. Menos que 1% acreditavam que as forças da “coalizão” (EUA-Reino Unido) fossem boas para sua segurança. 80% opunham-se à presença das forças da coalizão no país e a maioria apoiava ataques às tropas da coalizão. O Afeganistão foi destruído muito além do que podem avaliar pesquisas confiáveis, mas há sinais de que algo semelhante pode ser igualmente verdadeiro. Particularmente no Iraque, os Estados Unidos sofreram uma severa derrota, abandonando seus objetivos oficiais de guerra e deixando o país sob a influência do único vitorioso — o Irã.
O massacre foi também desfechado em outros lugares, notadamente na Líbia. Os três poderes imperiais tradicionais (Grã Bretanha, França e Estados Unidos) asseguraram a resolução 1973 do Conselho de Segurança e a violaram imediatamente, tornando-se a força aérea dos rebeldes. O efeito foi inviabilizar a possibilidade de um acordo negociado e pacífico; o grande aumento das mortes (multiplicadas ao menos por dez, segundo o cientista político Alan Kuperman); deixar a Líbia em ruína, nas mãos de milícias beligerantes; e, mais recentemente, prover o Estado Islâmico com uma base que pode ser usada para espalhar o terror para mais longe. Propostas diplomáticas bastante inteligentes da União Africana, aceitas em princípio pelo líder da Líbia Muammar Qaddafi, foram ignoradas pelo triunvirato imperial, como analisa o especialista em África Alex de Waal. Um enorme fluxo de armas e jihadistas espalhou terror e violência desde a África Ocidental (agora campeã de assassinatos terroristas) até o Levante, enquanto o ataque da OTAN ocasionou ainda uma enchente de refugiados da África para a Europa.
Foi mais um triunfo da “intervenção humanitária” e — como revelam os longos e muitas vezes macabros registros históricos do início deste tipo de ação na época moderna, quatro séculos atrás — não foi nem um pouco surpreendente.

- Trecho do livro "Quem governa o mundo?"
            (Metropolitan Books, 2016)
             Tradução de Inês Castilho.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O PERCURSO

                  

A escolha do terreno ideal é muito importante nos treinos de corrida de rua. É necessário ter o conhecimento prévio das condições do piso e do fluxo de pessoas e veículos em cada passagem do percurso, para poder praticar o exercício com segurança e tranqüilidade.
O condicionamento físico de cada corredor vai definir naturalmente o nível de intensidade nos treinamentos e a extensão do trajeto a ser percorrido. Na escolha do percurso é preciso conciliar a necessidade técnica do desempenho de cada atleta com a possibilidade física do terreno, além, é claro, do aspecto prazeroso de um caminho tranquilo em uma paisagem bonita e agradável.
A evolução do corredor vai depender da sua determinação e do seu propósito em cumprir um projeto de longo prazo, praticamente como se fosse um projeto de vida. Quanto mais aumentam as distâncias percorridas, mais o atleta ficará adaptado a percorrer distâncias ainda maiores.
É preciso ter muita persistência e força de vontade para manter a periodicidade e o ritmo dos treinos. Os percursos irão aumentando na medida em que o próprio corpo sente vontade de prosseguir. Independente do seu nível de treinamento, o corredor precisa sempre estar atento a vários fatores do percurso, prevenindo-se de buracos na rua e prevendo a possibilidade de movimentos inesperados nas proximidades das esquinas e dos portões.
O ideal é ter como modelo de treinamento as distâncias das provas oficiais de Atletismo para corridas de fundo e meio-fundo, partindo de 1,5 mil metros, passando para 3 mil, depois 5 mil, até chegar aos 10 mil metros. Assim você pode idealizar um percurso adequado, estabelecendo os parâmetros do trajeto a ser percorrido, com o firme propósito de aumentar as distâncias percorridas ao longo dos treinamentos.
É importante repetir o treino de uma mesma distância várias vezes, aumentando a velocidade para diminuir os tempos da corrida. A necessidade de aumentar a velocidade também vai surgindo aos poucos, na medida em que o atleta vai acumulando o condicionamento ideal. Quando o corredor atinge o percurso dos 10 mil metros, por exemplo, deve insistir nos treinos nessa mesma distância, procurando aumentar cada vez mais a velocidade, antes de partir para percursos mais longos, como a Meia Maratona e a Maratona
Para melhorar a resistência nos longos percursos, o corredor precisa experimentar vários tipos de terrenos, com pisos variados (asfalto, cimento, terra, grama, areia etc) e diferentes níveis de inclinação, alternando os treinos entre percursos planos mais velozes e percursos com inclinações leves e acentuadas. Evite o desgaste psicológico nos percursos íngremes e não pense muito na inclinação, nem fique olhando diretamente para o final da subida.
Tenha cuidado com as suas articulações nas descidas acentuadas. Os principais problemas físicos acontecem com os joelhos e os tornozelos, que precisam sustentar o peso do corpo na descendente. O corredor deve diminuir o ritmo e inclinar ligeiramente o corpo para trás. Os braços devem ficar mais parados e os cotovelos um pouco afastados do corpo, criando uma espécie de "asa", que ajuda no equilíbrio.
Esse momento de menor esforço na descida pode servir para o atleta respirar mais fundo, relaxar um pouco a musculatura e observar a paisagem, até atingir novamente o terreno plano e retomar o ritmo normal da corrida. O tempo e o ritmo dos treinos vai depender muito da inclinação do terreno e do clima. Nos percursos planos o ritmo, além de veloz, é constante, causando grande variação em relação aos tempos nos percursos inclinados. O aumento do calor também é um fator que causa uma sensível diminuição na velocidade da corrida.
Os corredores amadores não gostam muito de treinos na pista tradicional de Atletismo, embora isso também possa ser divertido. Como o piso da pista é mais veloz do que na rua, existe um risco maior de que treinos constantes com corridas mais rápidas possam ocasionar algum tipo de lesão, caso o atleta não esteja bem preparado e aquecido. 
Para os corredores profissionais que praticam a corrida de rua em alto nível, a pista de Atletismo é muito recomendada. Na rua, é interessante começar o treino com um ritmo mais leve, até atingir um bom aquecimento do corpo. É o tempo necessário para sair do trânsito urbano e alcançar áreas mais livres, para assim correr com maior desenvoltura. 
          E, no final da corrida, muita atenção: não deixe que o cansaço do treino ou o entusiasmo de um sprint prejudiquem sua concentração quanto a eventuais obstáculos na rua, cuidando sempre da sua segurança em primeiro lugar!

quarta-feira, 27 de abril de 2016

PARIS, 1900

Vou lhe contar, foi uma avacalhação. Uma Olimpíada durar cinco meses? Essa durou. Sem um relatório oficial do ocorrido nos Jogos? Não pode, mas aconteceu. E começar sem cerimônia de abertura, sem um defile, qualquer coisa solene marcante? Não deveria ser assim, mas lhe garanto que foi.
Então, você dirá, essa coisa atrapalhada só pode ter sido num país bem fuleiro, subdesenvolvido, certamente no Terceiro Mundo, em alguma cidade pobre, feia e sem glamour. E eu retrucarei: quer apostar que não? Não tente adivinhar. Pois vai perder seu tempo. E eu continuo a provocar sua imaginação.
Imagine uma edição dos Jogos Olímpicos em que não haja estádio ou ginásio próprio. Em que a abertura se resuma a umas palavrinhas ditas pelo presidente do país antes de uma prova de ginástica.
Imagine as provas de natação disputadas no rio que corta a cidade, correnteza abaixo, propiciando uma série de recordes totalmente incompatíveis com os resultados em uma piscina comum. E sem que o tráfego de embarcações tenha sido suspenso enquanto os nadadores disputavam! Claro que esses números não seriam validados...
Agora pense em competições de futebol, tênis, remo, polo e cabo de guerra com times formados por atletas de diversos países. Sem nenhuma bandeira nacional. Imagine que as mulheres mal passaram de 2% do número de homens. E tente acreditar que um jogo de croquê teve apenas um ingresso vendido, a um torcedor de uma cidade distante.
Ah, e confusão de nacionalidades. Um atleta de um país competir por outro? A comissão de premiação não saber a que nação creditar a vitória de vários competidores? Três provas de tiro disputadas ao mesmo tempo em lugares distantes?
E quadras insalubres a receber jogos de esportes coletivos? Outra de local inadequado: na prova de arremesso de disco, com a força empreendida pelos atletas, pelo menos três peças atingiram perigosamente a plateia.
Não, você nunca vai acreditar que houve uma Olimpíada  em que o finalista no atletismo se recusou a participar da final porque sua religião não permitia que ele fizesse isso em pleno domingo. Você duvida? Mas é verdade.
Olha, você pode me chamar de mentirosa, mas lhe garanto que foi verdade. Briga na final de rúgbi, soco na de corrida, tudo isso foi fichinha. Muitos vencedores desses Jogos Olímpicos só seriam reconhecidos e receberiam medalhas doze anos depois. Como então foram premiados? Com lembrancinhas como guarda-chuvas, pratos e carteiras!
E a cidade-sede ainda tentou incorporar aos Jogos as provas de bilhar, corrida sobre asno, pesca com vara, torneio de pipa e tiro com canhão. Só conseguiu emplacar natação com obstáculos e resistência subaquática…
Para finalizar, contarei a história de um vitorioso anônimo. Até hoje ninguém conseguiu descobrir o nome do menino chamado para substituir o timoneiro numa prova de remo em que o titular não teve condições de atuar. O garotinho entrou na embarcação, conduziu o conjunto à vitória, participou da cerimônia de premiação… e desapareceu para sempre. Nunca se soube seu nome ou sua idade.
Leitor amigo, toda essa esculhambação não aconteceu no Brasil nem em nenhum país da periferia. Quem protagonizou essa Olimpíada esdrúxula foi Paris, a Cidade Luz, a capital da França, o charmoso sonho de consumo das pessoas mais nobres – e das mais esnobes – do mundo.

(Do livro "Sonhos Olímpicos", de Clara Arreguy).

POMPÉIA, O GOLEIRO VOADOR

Sou torcedor do América F.C. do Rio de Janeiro desde pequeno e isso quer dizer muita coisa para quem começa 2013 com 64 anos. Posso dizer que sou americano de coração, embora isso pareça anacronismo para as gerações de hoje, que olham para os times do Rio e só veem Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco. Mesmos alguns antigos torcedores do mequinha deixaram de lado as tradições do pavilhão rubro, abdicaram de sua história e bandearam-se para um dos grandes do Rio.
Minha atenção para o América veio de meu pai. Nos domingos, lá em Vila Isabel, meu pai e meu tio disputavam, quase a tapa, eu e meu irmão. Eu recebi, de meu pai, o uniforme do América, comprado na Superball e meu irmão, de meu tio, o do Vasco. No quintal brincávamos de América e Vasco, o clássico da paz, assim denominado por ter selado a pacificação no futebol carioca em 1937.
Mais tarde, já com oito anos, levado por meu pai, via os jogos do América no estádio da Rua Campos Sales. Sentia-me importante sentado na arquibancada junto com aquele mar de camisas vermelhas. Olhava com aflição e atenção os jogos. Notava a elegância de Amaro, a velocidade de Nilo, a classe de João Carlos. E o que falar da emoção dos gols de cabeça de Quarentinha, da calma de Djalma Dias ao desfazer, dentro da área, as jogadas dos adversários?
Mas quem mais me impressionava era o goleiro. Diferente do restante do time, que usava a camisa vermelha e o calção branco, Pompéia se vestia de negro ou de cinza e trazia no peito o escudo do mequinha. Era esguio, alto, de uma flexibilidade ímpar. Sua elasticidade chamava a atenção. Eu não tirava os olhos dele, entusiasmado com os seus voos, as suas defesas mirabolantes que levaram o narrador esportivo Waldir Amaral a apelidá-lo de Constellation. Outros apelidos se seguiram: Ponte Aérea, Caravelle, Fortaleza Voadora. Todos cabiam como uma luva naquele homem simples, nascido em Itajubá, Minas Gerais.
Esse extraordinário goleiro iniciou carreira no circo, onde desenvolveu sua capacidade de impulsão, experiência que deu a ele a condição de ser um goleiro acrobático. Suas defesas mexiam com a plateia e mereceram de Nelson Rodrigues uma crônica em um América e Bangu:
“Foi, então, que surgiu Pompéia, como uma bastilha inexpugnável. Pompéia! Eis o que o América tem e os outros clubes, não: − um Pompéia. Que bela e emocionante figura! É o goleiro mais plástico, mais elástico, mais acrobático do mundo. Nada tem de simples: − ele complica tudo. Em primeiro lugar, não sabe defender sem um salto ou, mais do que isso, sem um vôo. Pompéia voa, amigos. Pompéia voa! E enfeita, dramatiza, dinamiza tanto suas intervenções que o público tem a sensação de que todas as suas defesas foram geniais. (...) Ele é o espetáculo”.
O apelido Pompéia vem da sua infância. Desatento aos estudos, gostava mesmo era de desenhar e o fazia bem, colocando no papel os personagens Popeye e Olívia Palito. Os colegas que viam os desenhos passaram a chamá-lo de Pompéia, pela dificuldade de pronunciar o nome do marinheiro. Pompéia nasceu José Valentim da Silva, em 27 de setembro de 1934, dia de São Cosme e Damião.
Iniciou sua carreira esportiva como centroavante no clube Itajubá, time composto de funcionários de uma fábrica de material bélico que participava do campeonato da Segunda Divisão mineira. Mais tarde, se transferiu para outro clube da cidade, o São Paulo, ainda como centroavante. Em um jogo em Três Pontas, o goleiro do São Paulo adoeceu e Pompéia foi escalado no gol. Saiu-se tão bem que chamou a atenção de todos, foi a grande sensação do jogo. Mais tarde, numa partida contra o Bonsucesso do Rio, o goleiro titular do São Paulo entusiasmou a todos, inclusive ao juiz da partida, também olheiro dos times do Rio, que convidou-o para treinar no Bonsucesso e jogar na Cidade Maravilhosa.
Atraído pelo convite, o goleiro não pestanejou e decidiu ir para o Rio. Apresentou-se em Teixeira de Castro e assinou seu primeiro contrato profissional em abril de 1953. No ano seguinte, transferiu-se para o América, onde permaneceu por 11 anos. Seu aprendizado da profissão foi feito com a ajuda do seu primeiro técnico. Alfinete, técnico do Bonsucesso, levava-o para assistir aos jogos do Vasco e do Fluminense, para ver Barbosa e Castilho atuarem. Mas não copiou o estilo de nenhum deles. Construiu um perfil próprio, no qual a estética das defesas se sobrepunha às dificuldades dos chutes. Em qualquer bola desenhava uma cena entre o belo e o rocambolesco, lançando-se sobre a bola de maneira espetacular. Para uns, era presepeiro, para outros, excelente goleiro.
Quando estava no seu dia, tomava conta do espetáculo e não tinha para ninguém, fazia das tardes de domingo o seu momento de fama e os comentários das resenhas do dia seguinte eram elogiosos. Com a estética do goleiro criada por ele, deixou como herança uma jogada, a ponte aérea. O nome vinha da novidade da época que era a ponte aérea entre Rio e São Paulo. Inventada por ele, hoje se tornou em jogada comum dos goleiros. Essa é apenas uma das contribuições de Pompéia. Porém, mais importante do que isso é a construção de uma nova forma de agarrar no futebol, trazendo para as partidas momentos de comédia de arte ou de tragédia cômica, subvertendo a forma tradicional de comportamento dos goleiros e alegrando a plateia, que ria e sofria com seus voos.
Essa marca particular de Pompéia levou-o à consagração como goleiro titular do América Futebol Clube (campeão carioca de 1960), atuando também como titular, em 1957, pela seleção carioca. 
Pompéia chegou à seleção brasileira, quando a CBD montou um combinado para defender o Brasil em jogos contra seleções sul-americanas. 
Diversas vezes ficava patente o racismo, quando se associava sua elasticidade a dos macacos.
Em seu primeiro jogo pelo América já despertou entusiasmo. O América jogava um torneio quadrangular em Lima, no Peru, do qual também participa o Santos de São Paulo e, no jogo final entre os dois clubes, Pompéia defendeu um pênalti batido por ninguém menos que Pepe, que assustava com a potência de seu chute todos os goleiros. Com essa apresentação de gala passou a dividir o gol do mequinha com Ari em diversas jornadas, mas sendo o titular em 16 das 22 partidas disputadas pelo América no campeonato de 1960.
Seu nome era dito, cantado, anunciado nas bancas da cidade nas segundas e sua estética de goleiro ganhou fama. Vários pompéias surgiram no Brasil e seus voos levaram-no longe. Jogou no Porto de Portugal e em vários clubes da Venezuela. E foi na Venezuela que terminou sua carreira de goleiro esteta. 
Em 1969, num jogo entre o seu clube, o Desportivo Português, e o Real Madrid, depois de agarrar um chute difícil, que no rebote a bola foi novamente chutada contra a sua cabeça, perdeu uma de suas vistas, deixando a outra também prejudicada. O chute foi dado por ninguém menos que Di Stefano. Com isso, teve que abandonar o futebol.
Com a impossibilidade de continuar a atuar, Pompéia perdeu a alegria. Seu colega Amaro ainda tentou levá-lo para o Bonsucesso como preparador de goleiros, mas nada mais deu certo na vida do grande Constellation. Na rua da amargura, sozinho e perdido, voltou-se para a bebida e morreu em maio de 1996, em um quarto de um manicômio, olhando para uma bola.
Amargou na vida e na morte a sina dos goleiros, ditada na célebre máxima de autoria desconhecida: “o goleiro é tão maldito que onde ele joga não nasce nem grama”.


*Antônio Edmilson Rodrigues 
(Publicado na Revista Carta Maior em 2013).